Começo por falar de um dos meus hobbies favoritos que é a escrita, uma autêntica paixão. Depois de muitos anos a escrever textos soltos, de dúvidas, medos e hesitações, materializei o sonho de publicar um romance meu. E como me senti feliz e realizado de realizar esse sonho.

Recebi uma generalidade de criticas positivas que me encheram de orgulho mas houve uma que me emocionou particularmente: a do mestre português na literatura policial – António de Andrade de Albuquerque – que sob o pseudónimo de Dick Haskins vendeu a fabulosa soma de 6 milhões de romances nos anos 60/70 em todo o mundo!!

Em primeiríssima mão e em exclusivo para o site divulgo a mensagem que ele me enviou após ler o meu romance. Fiquei sem palavras.

Ao mesmo tempo divulgo a parte inicial do prólogo da “A NOITE EM QUE TE VINGUEI”, sobretudo direccionado aqueles que não leram o livro que podem assim ter um contacto com a minha escrita.

Meu caro Luís:

Acabei hoje a leitura de A NOITE EM QUE TE VINGUEI ….. ..O nível  da prosa é, na minha opinião, excelente, e esse nível está sempre, e invariavelmente, na  naturalidade com que escreve, bem e sem o emprego de termos rebuscados, predilectos de alguns escritores que, muitas vezes, podem dar origem a que o leitor ponha o livro de lado! Enredo bem imaginado, descrito com o ritmo certo e prendendo o interesse do leitor da primeira à última página.  O desfecho é inesperado, está muito bem resolvido e, por isso mesmo, nos surpreende agradavelmente…..
Os termos mais fortes de calão são pronunciados nos momentos certos, a grande maioria das vezes pelas personagens certas; outras vezes,  como o «desabafo» das personagens que, por norma, não os empregam a torto e a direito. Não chocam, por este motivo (há alguns autores que empregam, até sem necessidade alguma, o calão desde o princípio ao fim do livro…

A NOITE EM QUE TE VINGUEI, com um enredo  bem concebido e actual, está muito além do que, em princípio, podia ser esperado no  primeiro livro de um novo autor! Como a vocação nasce com o escritor –  apesar de hoje ser vulgar certas pessoas declararem publicamente «Vou escrever um livro», como se fazê-lo fosse tão banal e fácil como beber uma bica no café da esquina! – surpreende-me que só agora tenha decidido fazê-lo!  Porquê, essa longa espera…? Quantos livros teria escrito até agora, e não o fez! Quantos livros já podia ter publicado, até em tempos mais agradáveis do que o confuso presente que estamos a viver!…..

Renovando a minha admiração pelo Novo Escritor e Colega, e pelo excelente nível da obra com que se estreou, um abraço amigo,

António

PRÓLOGO

Sexta-feira, 23:15

O rumor da chuva no tejadilho dos automóveis estacionados e o assobio fininho do vento norte são a minha companhia. Transformei-me numa sombra envolta numa gabardina escura que se confunde com as trevas da noite. Olho para o relógio à espera que algo aconteça. Já não pode faltar muito para que ele chegue.

O roncar de um motor potente no início da rua, alia- do aos faróis intensos que varrem a escuridão, faz-me endireitar e sair da penumbra da árvore onde me escondo. Ajusto o colarinho da gabardina, aconchego o cachecol que me cobre a boca e o nariz, meto as mãos nos bolsos e permaneço imóvel. Sinto-me tenso. Uma gota de suor desliza em direcção à pálpebra esquerda. O portão da mora- dia, no sonolento bairro do Restelo, está a menos de quinze metros. O Porsche Carrera Turbo abranda e aponta os faróis ao portão. A minha mão direita desliza para fora do bolso com uma pistola conhecida por Colt Anaconda 44,

uma pequena arma infernal de eficácia comprovada. Foi- me vendida por um amigo africano do mundo do crime. Estou em alerta máximo.

Um homem de estatura média, com alguns quilos a mais, abre a porta e, a custo, sai do automóvel. Da sofisticada aparelhagem de som, reconhece-se facilmente um artista famoso além Atlântico, uma música que se sobrepõe ao barulho intenso do motor ao ralenti. O meu alvo  sim, ele não sabe, mas é o meu alvo, veste um fato cinzento, uma camisa azul e uma gravata de cor indefinida como a da gasolina. As mãos e a cara são pálidas, quase cinzentas, típicas de quem vive muito tempo em parques subterrâneos os ou discotecas. Na boca, um charuto, que terá pela frente ainda uma hora bem medida antes de se esgotar. A passo lento, com as chaves na mão, encaminha-se para o portão, pronto a abri-lo.

– Volte-se devagar e sem movimentos bruscos.

O homem fica em sobressalto. Vira-se lentamente, pálido, sem um pingo de sangue.

– Quem é você? – pergunta, balbuciando numa voz trémula que só a surpresa e o medo são capazes de provocar. Tenta vislumbrar os contornos exactos do meu rosto.

– Chegou o momento de ajustarmos contas.

Aproximo-me e deixo que perceba o cano escuro da arma. Dou mais dois passos. Levanto a cara, olho-o nos olhos. Ao perceber quem sou fica atónito. Aproximo-me ainda mais. Ele faz um esgar de terror quando sente a pressão da arma bem perto do coração. A boca entreabre-se e a

saliva branca acumula-se-lhe nos lábios. Numa fracção de segundos, parece-se recompor-se. O medo dá lugar à cólera.

– Filho da mãe… Tu nem te atrevas, que eu…

Agarro-o pelo pescoço e interrompo a retórica arrogante.

– Não percebes que agora quem manda aqui sou eu, seu cabrão de merda? – rosno com os dentes semicerrados pelo ódio. – Esperei muito tempo por este dia.

O medo volta a apoderar-se dele.

– Podemos falar? – sugere com o nervosismo dos condenados.

– Agora? Não, não.Tiveste estes anos todos para falar comigo. É tarde. Pelo menos sabes quem te vai acabar com a vida.

O rosto do homem revela outra vez uma emoção tão intensa, que é quase patética. Olha-me fixamente, tenta prever cada movimento. Sente-se perdido. Sem saída.

– Dou-te o dinheiro que quiseres. Quanto é que queres? – Nada. Apenas a tua vida.
Não há lugar a contemplações. Todos os meus músculos estão contraídos, na iminência de um disparo. E nesse instante, que o coloca entre a vida e a morte, recuo três passos.

Decido premir o gatilho. Sinto-me dominado por monstros interiores. Frios e precisos. Entre a raiva e a loucura, experimento um movimento letal, um sonho de vingança que rasga a realidade.

Três tiros. Para ter a certeza.
Aguento o coice da arma. A minha mão não treme.

Insanidade total.

Com os olhos esbugalhados de espanto, encaixa as três balas no tronco e o seu corpo estremece. O peito pare- ce estalar-lhe numa colossal nuvem de sangue. Num estranho bailado de desequilíbrio, cai de joelhos, desamparado, no chão húmido da rua, perto do automóvel. Está imóvel, de braços abertos. O seu sangue vai formando uma poça de um vermelho igual a qualquer outro sangue. Não há qualquer hipótese de sobrevivência. Morreu sem sofrer muito. Talvez o maior sofrimento tenha sido reconhecer o seu carrasco.

Como que hipnotizado pelo som dos disparos que ressoam na quietude da noite, aguardo uns breves segun- dos que parecem uma eternidade. Não demoro muito a reagir. Algum curioso ou a própria polícia não tardaria. Meto a arma no bolso, com os sentidos mais alerta do que alguma vez vivenciei. Não quero voltar a vê-lo. Fixo-me no cinzento-escuro do passeio, no verde denso da relva do jar- dim, nas nuvens negras e no estremecimento que o vento forte causa nas folhas das árvores. Reparo que o meu crime teve uma espécie de banda sonora que as emoções abafaram. O som potente que continua a sair do rádio do carro: a voz desesperada do Nelson Ned, numa das suas músicas mais populares, a perguntar «o que é que você vai fazer domingo à tarde?» Ironia do destino, iria ser provavelmente o dia do enterro.

Dirijo-me a passos largos para o meu automóvel, estacionado a poucos metros dali. «As minhas feridas clandestinas estão saradas», murmuro.

Agarro o volante com força, ligo o motor e piso o acelerador. Arranco sem saber ao certo qual é o meu destino. Olho pelo retrovisor. Ninguém me segue.

Vou passar a noite com os meus medos e com os meus fantasmas.