India Chronicles

Até já India

By August 28, 2018 No Comments

Chegou ao fim a minha relação profissional com o futebol indiano. Temporariamente? Definitivamente? O futuro o dirá, mas gostaria de poder um dia voltar a este país que tão bem me tratou e a um grupo de jogadores que nunca esquecerei.

Por isso o meu adeus é um “Até já”

Tive a oportunidade de participar num Mundial de Futebol. De Sub 17 é certo, mas não deixa de ser um Mundial FIFA que todos os treinadores gostariam de experimentar nas suas carreiras. Jogar 3 jogos com audiências médias de mais de 50.000
espectadores em êxtase foi algo de extraordinário.

Mas mais importante foi o impacto num país cujo desporto rei é o críquete e que olhava o futebol com alguma desconfiança.

Sei que deixei a minha marca pessoal no futuro da geração mais talentosa futebol indiano. Nos 21 jogos transmitidos directamente na televisão (Mundial de Sub 17 e I League Profissional Senior)centenas de milhões de indianos puderam aperceber-se do crescimento destes meninos imberbes, que se tornaram muito mais confiantes, através de uma mentalidade ganhadora, através de uma cultura de jogo onde prima a organização e que os tornou ídolos de uma nação cada vez mais adepta de futebol.

Eles alteraram a visão conservadora dos dirigentes e treinadores indianos em relação ao conceito de idade dos jogadores para a alta competição. Hoje já não há dúvidas que um jogador de 16/17 anos pode jogar com sucesso numa competição profissional como a I League. (A equipa que dirigia na I League – Indian Arrows- apresentava um média de idades de 16,9 anos de idade!!!

Espero muito sinceramente que o legado de ideias e princípios que deixei na India possam ter continuidade nos próximos 2, 3 anos. Com mais rigor, exigência, método e planificação. E que não se deixem adormecer por resultados “históricos”, os empates com selecções como o Chile (1-1), Sérvia (0-0) e Macedónia (0-0) ou as vitórias sobre seleções como Itália (2-O) e Argentina (2-1).Porque todos estes resultados foram conseguidos em contextos de jogos ou torneios amigáveis. São apenas um indicador de crescimento, uma motivação para o futuro mas ainda muito longe de ser a realidade do futebol indiano.

México (de verde), Chile (Vermelho) e Colômbia (Amarelo), no torneio das 4 nações no Mexico

Que não se deixem iludir com vitórias fáceis sobre adversários sem categoria , escolhidos a dedo coma certeza de vitórias fáceis. Só serve para criar bebedeiras de optimismo, falsas expectativas e enganar a realidade.

Há uma enorme diferença entre jogos amigáveis e jogos em competições oficiais.

Os resultados de maior impacto destes jovens foram as vitórias na I League indiana, as exibições brilhantes que realizaram, mas sobretudo as dificuldades competitivas do futebol do futebol sénior que os fizeram progredir enormemente. Puseram os adeptos indianos a acreditar no processo e os analistas de futebol a discutirem publicamente a aposta ganha por esta decisão competitiva.

A possibilidade de vitórias sobre adversários mais cotados é neste momento uma realidade mais que possível. E como afirmei por diversas vezes, as derrotas contra os mais cotados( Colômbia, Estados Unidos, Gana…) só fizeram crescer estes jogadores.

Jogo contra os EUA

 

Contra a seleção do Gana

 

O futebol indiano necessita urgentemente de ganhar créditos com vitórias em competições oficiais. O primeiro passo que considero fundamental e que esteve na base de toda a minha planificação é a conquista da Ásia , na próxima qualificação para o Mundial de Sub 20 em 2021. Adversários como o Irão, Japão, Iraque ou Coreia do Sul são hoje acessíveis a esta seleção indiana.
Não é preciso falar em milagres. Porque o processo de jogo que foi trabalhado nos últimos 14 meses já permite essa viabilidade de sucesso.

Outro passo importantíssimo,
que considero fundamental e decisivo para o desenvolvimento do futebol indiano , é ter jogadores indianos jogar em clubes europeus, tal como aconteceu outrora com o futebol japonês , sul coreano ou norte americano. Esta referência seria óptima para a imagem da Índia e um exemplo a seguir por parte de milhões de novos praticantes.

Esse perfil de jogador já existe nesta geração que treinei e espero que haja visão por parte das entidades competentes para facilitar e promover esse passos. E este ano é o momento porque a maioria ainda é junior e nesse escalão há vários jogadores que podem jogar em boas equipas europeias.

Terem a possibilidade de sair e ficarem na Índia , significa estagnar, porque o período competitivo na Índia é curto e as oportunidades para os jovens jogarem nas equipas da ISL são ainda muito reduzidas.

Mas nada disto fará sentido se não houver um centro de estágio nacional. É fundamental, urgente e decisivo a criação de uma Casa das Seleções, com um centro de alto rendimento, vários campos de futebol de qualidade, e, IMPRESCINDÍVEL , apostarem na especialização do conhecimento humano nas diversas áreas do treino.

E já com alguma saudade cá fico a torcer por esta geração, pela qualidade do seu futebol e pelos bons resultados que vão acontecer necessariamente, desde que não haja desvio das grandes linhas mestres em que está alicerçado o processo desde Fevereiro de 2017.

Faço votos que a Federacao/ Governo continue a acreditar neste processo, investindo numa melhoria da logística de trabalho e da estratégia da planificação desta seleção nos próximos 3 anos.

Obrigado a toda a legião de técnicos portugueses que participou numa parte desta campanha e cujo contributo foi essencial para mostrar o caminho do conhecimento, essencial para o futuro.

Paulo Grilo e Hugo Martins

 

Professor João Pedro Silva

 

Treinador Hélder Fontes

 

Sandro Pinto e André Gomes.

Sem a qualidade deles teria sido impossível ter havido tanto progresso e desenvolvimento. O meu muito obrigado pelas muitos meses , dias e horas que partilhamos nesta caminhada.