India Chronicles

Ano de 2017

By January 24, 2018 No Comments

JANEIRO

Entrei no novo ano em Cascais, com a família, contemplando o bonito fogo de artifício da baía, com a esperança de encontrar um clube para treinar.
Apesar de curtos, os dias deste mês parecem longos e intermináveis.Tempo para ler, reflectir, conviver com a família, mas sempre com a nostalgia do treino, do cheiro da relva, da disciplina dos horários e da adrenalina dos jogos.

Os comentários da CAN ( Campeonato das Nações Africana) para a Europsort, e as crônicas para o jornal Record da mesma competição, atenuaram essa ausência física diária no treino e permitiram-me focar em jogos, jogadores e equipas.

O clima de são convívio diário com a equipa comentadora foi igualmente um excelente divertimento que animaram as minhas tardes e noites.

FEVEREIRO

O mês continuou com o ritmo mágico africano de futebol.

A Guiné Bissau fazia-me sonhar na sua estreia nesta competição, com muitos dos jogadores presentes a iniciarem o percurso da selecção comigo como treinador dois anos antes.
Acabou o torneio e com ele a “ocupação futebol” durante 15 dias.

Voltei para os longos passeios diários junto ao mar, no meio das dunas da Crismina , na paisagem única do Guincho, para o obrigar o corpo e a mente a uma disciplina de exercício quotidiano.

O mar , associado à fria brisa matinal, e à beleza tranquila da paisagem com o céu mesclado de azul e o branco das nuvens, trazem-me uma energia positiva.

Faltam quase duas semanas para o final do mês, quando chegou aquela chamada sempre tão desejada quando um treinador está no desemprego. Só que não é um agente ou clube. É um AMIGO treinador, que a minha mulher chama de meu Anjo da Guarda, pelas várias vezes que meteu a cabeça e o seu Enorme Nome pela minha competência junto de clubes ou federações. E assim no dia 27 de Fevereiro embarquei , com os olhos brilhantes de emoção, ambição e felicidade, para um projecto futebolístico completamente diferente§: treinador da selecção de sub 17 da Índia que iria jogar o Mundial da categoria.

MARÇO

No primeiro dia deste mês, assinei o meu contracto no Hotel St. Regis em Mumbai.

Dois dias depois fui apresentado aos jogadores e comecei os treinos em Goa, terra que viu nascer o meu avô paterno, registado e baptizado na Igreja do Altinho, em Pangim.

As boas energias tomaram imediatamente conta de mim. Entusiasmo nos treinos, e a minha alma encheu-se de novas cores, sabores e cheiros.Começar a trabalhar ao nascer do Sol, e relaxar ao por do Sol, passou a ser a minha receita diária durante as 5 semanas seguintes.

Os progressos dos jovens jogadores indianos eram motivadores.

ABRIL

A equipa de sub 17 indiana veio estagiar para Portugal, naquele que foi o primeiro itinerário na Europa.. A primeira semana tivemos condições excepcionais em Tróia, nas excelentes instalações do One Training Center Mourinho.

Bons relvados, bom hotel, boa alimentação e excelente ambiente para trabalhar.

A segunda parte do nosso trabalho decorreu no Estádio Nacional. Mal sabíamos que nunca mais conseguiríamos as mesmas condições até ao mês de Outubro.

MAIO

A meio do mês, viajamos para Italia, região de Roma, com uma curta passagem por Paris onde realizamos um jogo amigável.

Em Italia obtivemos um resultado fantástico ao ganhar por 2-0 a uma selecção italiana de sub 17, na lindíssima cidade de Arezzo.

Depois jogamos um Torneio em Fiuggi, a região dos Papas, entre Roma e Nápoles.

 

JUNHO

Prosseguiu a nossa digressão pela Europa, desta vez em terras magiares. Primeiro Budapeste e depois Kasporvar foram a as cidades em que treinamos e jogamos alguns jogos sendo de destacar os dois empates contra a Sérvia e Macedonia. Para mim uma estreia na Hungria. Adorei.

Próximo do dia 20 partimos para o último estágio em Madrid, onde as temperaturas foram muito elevadas (a rondar os 40graus) e a qualidade de treino baixou. Também já se começava a sentir a saturação de dois meses e meio com as malas às costas.

 

JULHO

Um período de férias bem merecido preencheu as primeiras duas semanas do mês. Para trás as recordações de dois meses e meio de viagens e claramente Portugal ficou como a grande recordação mais positiva da comitiva que ficou com enormes saudades de voltar.

Do ponto de vista cultural foi muito importante e extremamente enriquecedor a visita a estes países.
O regresso ao trabalho em Dehli acolheu os jogadores com mais confiança e de novo frescos física e mentalmente.
Recarreguei baterias em família, entre a praia de Arrifana e a zona de Ponte de Lima.

AGOSTO

Novo torneio, nova viagem, nova estreia no meu passaporte. México.

Por razões às vezes inexplicáveis deixamo-nos influenciar, negativa ou positivamente, por uma cidade ou país, sem nunca lá termos estado. Confesso que a Cidade do México nunca seria uma das minhas prioridades. Violência, terramotos, excesso de população eram motivos para não me interessar. Puro engano. Adorei a cidade, a música, o ritmo, as cores, os graffitis, os restaurantes, a simpatia das gentes, os bairros e a cultura. Aconselho vivamente.

O torneio deu-nos mais experiência e apesar de duas derrotas normais (México e Colômbia) conseguimos um honroso empate,  (1-1) com o Chile.
No regresso à Índia fomos estagiar 3 semanas para a cidade de Bengaluru, que antes nunca tinha ouvido falar. A Sillicon Valley da Índia, com quase 9 milhões de habitantes. Trânsito caótico, muita chuva, relvado em más condições e existência de dengue.

SETEMBRO

Fiquei feliz quando abandonamos Bengaluru e fomos para Goa, cumprir a última etapa de treinos antes do Mundial.

Mas os resíduos das monções ainda provocaram alguns contratempos na preparação da equipa, sobretudo porque os relvados estavam muitas vezes impraticáveis. Mas Goa é realmente uma India diferente e o melhor local para uma equipa estagiar.

 

OUTUBRO

Finalmente o Mundial á porta. O nervoso miudinho já estava à flor da pele. Havia um sentimento misto de ansiedade, confiança e receio. Sabia que o objectivo era impossível embora o sonho permitisse alguma ilusão. Desconhecia qual era o valor da nossa equipa em jogos OFICIAIS , e numa estreia num campeonato do Mundo, quando tivesse que jogar com 50.000 espectadores contra os colossos USA, Colômbia e Gana!!!

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Felizmente que os progressos conseguidos pelos jogadores
permitiram exibições que tiveram o reconhecimento unânime, galvanizaram um país para o fenómeno futebol e sobretudo criaram a esperança para o futuro da modalidade. As derrotas podem tornar-se vitórias.

 

NOVEMBRO

Imediatamente após o Mundial e com o entusiasmo desta geração de sub 17, a Federação convocou a maioria dos jogadores desta selecção a participar, na Arábia Saudita, no apuramento asiático de sub 19 de qualificação para o Mundial de sub 20. E convidou-me para ser o treinador desta equipa.
Ou seja, de um objectivo impossível (Mundial) passamos para um objectivo «quase» impossível.

Mas o objectivo desenvolvimento do futebol jovem estava alcançado.

Apesar de ter ficado em 2 lugar do grupo, com o Yémen, a selecção indiana não conseguiu o apuramento. Como registo, dois resultados históricos dos sub17, um empate (0-0) contra o Yémen e uma vitória (3-0) contra o Turquemenistão, na categoria Sub 19.

DEZEMBRO

– Sem tempo para respirar, a maioria do grupo sub 17 foi inscrita para disputar a I Liga senior profissional da Índia, com o nome Indian Arrows. Mais um desafio enorme que começou de forma histórica: vitória por 3-0 contra o Chennai equipa que apresentou 5 jogadores estrangeiros.! Aliás como todas as outras equipas.
E até ao final do ano, em 5 jogos realizados contabilizamos 6 pontos, tivemos 3 vezes um jogador nosso como «Man of the Match», batemos o record do jogador mais jovem (16 anos) a marcar na I League, o melhor golo de 2017 na I League pertenceu a Nong, jogador da equipa Indian Arrows, e motivamos muita discussão positiva à volta desta participação épica e única.
Somos a única equipa a apresentar só jogadores de nacionalidade indiana, e todos eles de 16, 17 ou 18 anos. Inédito!!
Há sempre muito entusiasmo à volta da equipa.

E se o inicio da minha estadia na Índia começou no hotel St. Regis em Mombai,a minha despedida do ano 2017 foi no Hotel Le Méridien em Delhi. Pelo meio, ao longo de 10 meses fiquei alojado em 38 hotéis diferentes!!! Parece fácil e agradável mas é um grande desgaste e causa saturação porque vivemos de forma impessoal.

  

Para quem gosta de estatísticas, durante o ano 2017 caminhei 1761 km!! Informação diária no meu telemóvel. Boas modernices.

Entrei em 2018 com o sentimento que vivi algo em 2017 que nenhum dinheiro pode pagar: ser respeitado, ser bem tratado, ser desejado e ser valorizado. Ganhei uma nova espiritualidade que é fundamental para o equilíbrio emocional. A Índia deu-me isso!

  

A nota final de todo este ano vai para a minha mulher, que foi uma presença quase sempre presente em todos os momentos vividos. Por detrás da força de um homem está a força de uma mulher. Um enorme suporte que tornou tudo muito mais positivo e mais fácil de suportar. As longas ausências da restante família, a solidão, as saudades. Sem ela tudo seria mais difícil e o ano não teria tido o mesmo sabor.